Caneta nas mãos
e a estranha sensação:
se não escrever hoje,
terei gases.
sábado, 13 de agosto de 2011
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Roda de Samba
Me vi de repente em uma roda de samba – nem tão roda e nem tão samba. Para minha namorada, estou em casa; não que eu tenha mentido, mas estava subentendido. Depois eu conto. E agora estou escrevendo quieta num canto, só ouvindo o não tão samba, e olhando... só olhando, o que nem é bem para ser olhado.Mas é isso, subiu a vontade: escrever. Porque para ler minha cabeça está girando depressa demais. Dormirei com a cama a galope.
Pessoas me olham e, certamente, pensam que sou passível de algum tipo de bullying: escrevendo em uma roda de samba.
Pessoas me olham e, certamente, pensam que sou passível de algum tipo de bullying: escrevendo em uma roda de samba.
(...)
O vento está batendo forte. Estou tremendo e minha letra está tremida. Escrevi assim mesmo, juro: estou e está. Acho que a tremedeira começa no joelho e vai até a boca, passando pela caneta. Só porque ainda não aprendi a tremer as orelhas.
A música está dizendo preu ficar. Fico?
(viro a página – fico.)
batem palmas quero ir pra mais perto não quero vírgulas
Tem gente girando e dançando com garrafas de eu quero na mão. Meu dinheiro pra bebida acabou, só resta o do ônibus, e desse ainda não desapeguei.
(...)
O efeito está passando, sou só eu mesma. Que bosta! (risos)
“Cerveja gelada vai chegar em cinco minutos!”. Construção. É do que preciso para ficar aqui pra sempre.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Jair do 504
Estou em meu apartamento estudando quando toca o interfone. Atendo:
- Boa tarde, aqui é o Jair do 504.
Vejo-me completamente desconcertada por não ser o porteiro anunciando a chegada de algum amigo ou entregador. “Caramba! Há outras pessoas no prédio! E elas falam...”. Por que a surpresa, Mariana? Você sempre soube disso, oras.
Estou acostumada a meu mundo de rostos marcados, já tarimbados. De resto, figuras sem rostos, sem nomes. E agora me vem esse tal vizinho do 504 me lembrando que de tal não tem é nada. Meu vizinho Jair, morador do 504, dono de uma voz bastante singular, diria até bonita se não fosse o choque de morar um Jair no 504. Um Jair que pode me interfonar quando bem entender e, pasmem, falar comigo.
Isso deve significar que meus outros vizinhos todos também existem, têm nomes, rostos e, eita, podem me interfonar e falar comigo. É, eu até sei da existência de um ou outro vizinho, mas, sabe, agora todos existem e moram tão perto. De repente, o mundo parece um bocado maior.
Mariana do 1001.
(12 de julho de 2011)
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Idiotemos!
Antes que se aproxime,
com sua ausência de todas as artes,
o triste sorriso da seriedade absoluta.
Absorta em si mesma, imune ao riso gratuito e desenfreado.
Imune à alegria dos bobos
à dança dos gestos aleatórios
aos sons da alma se revirando
à surpresa da explosão do nada.
Do ab-so-lu-ta-men-te nada!
Idiotemos!
Idiotemos com nossos saltos ao vazio.
Busquemos a emoção que paira, que plana.
A leveza de uma brincadeira ao acaso.
Viajemos com nossos olhos pela imortalidade das coisas esquecidas.
Abracemos o fio de poeira que flutua,
certamente ao nosso encontro.
(Por que não?)
Façamo-nos vítimas da idiotice sinestésica!
Intrínseca.
cambalhotas compulsivas
frases dessituadas
total falta de enredo.
Puns.
Abaixo a seriedade mesquinha!
Abaixo os que nos enquadram em sua falta de sonhos!
Pois que tentem!
Aos nossos amigos, o sorriso dos loucos!
Idiotemos!
Nós que sabemos idiotar!
domingo, 3 de abril de 2011
- Quando eu falar “já”.
O vento soprava forte e constante, fazendo a blusa grudar em suas costas e seus cabelos se insinuarem perante seus olhos. Sua amiga usava um vestido amarelo que dançava agitadamente e parecia arder sob a imponência do sol.
- Já!
Elas começaram a correr. A cada passo, um vôo alçado com a ajuda do vento. Seus pés descalços amassavam a grama por onde passavam. Lembrança física e irremediável de que ali estiveram.
Correram até o cansaço se sobrepor à euforia e derrubar-lhes sobre o verde intenso. Acompanhada da amiga, a menina começou a rir. Não uma gargalhada desmedida e sufocante, mas um riso compassado que compunha uma espécie de música junto ao balançar das folhas.
Embora nuvens pairassem a lhes observar, o sol impunha seu calor, cobrindo seus corpos com uma chama invisível.
Adormeceram.
Quando acordaram, às primeiras gotas de chuva, correram às suas casas para se abrigarem. Veriam-se no dia seguinte, e tornariam a rir e a brincar juntas, pensaram antes de dormir.
De manhã, quando chegou ao jardim, lá estava ela. A menina sorriu por um instante antes de ouvir sua sentença:
- Vou viajar.
- Quando?
- Amanhã.
- Você vai demorar?
Baixando a cabeça, a amiga olhou para o chão, sem prestar muita atenção a ele. Como em um ritual, a menina imitou o gesto, deixando que o vento lhes sussurrasse o silêncio. Envolvidas em um abraço não dado.
O carro partiu pouco depois do almoço. Em sua janela via-se um sorriso tão inútil quanto o aceno que mais parecia querer agarrar o tempo.
A menina apressou-se ao jardim e, feliz, constatou que ainda estavam lá o céu revestido de nuvens e o gramado cujo verde se alastrava até as copas das árvores. Aliviada, preparou-se para começar a correr, quando reparou que havia parado de ventar.
Ela teria que voar sozinha.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Escrevo poemas.
A poesia cabe a ti.
Revelá-la no espaço infinito
entre
um verso
e outro.
Asseguro-te que tento.
Das letras,
faço malabares,
teimosos em cair-me na cabeça,
deixando-me terrível galo.
Mas continua em tua busca.
Há de estar em algum lugar.
Mesmo que não a encontres
onde pensei que a tivesse deixado.
É que ela é assim mesmo.
Esconde-se toda vida,
depois surge num salto.
Essa tal de poesia.
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