quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


    Como um catador de lixo às avessas, vou buscando latas cheias de cerveja. “Hábito” quase tão lucrativo quanto o deles, dada a miséria paga. Menos saudável, entretanto. Bebo mais pra escrever melhor, ou pra não saber mais que estou escrevendo tão mal. E tocam (e tocam, e tocam, e tocam!) jazz. Não sei nem o que nem de quem, só sei que é jazz porque diz o cartaz: FESTIVAL DE JAZZ.

    (Porra! Me dou uma bronca pelo que ia escrever.)

    Essa cultura de “foi com quem?”. Parece que a gente tá sempre precisando de companhia, e, quando não precisamos, galera logo faz que sim: foi com quem? Fui comigo, porra.

    Tô é muito desconfiada desse jazz. Não entendo nada de jazz (de nada), mas isso não é jazz.

(...)

    Tem uma mãe me olhando e me olhando. Segunda mãe da vida me olhando e me olhando, e não to falando da minha, que só teve tempo de olhar rápido. Parou, foi embora.

(...)

segunda-feira, 26 de novembro de 2012



    Meio de novembro. Uma cobertura já enfeitada de natal pisca verde vermelho amarelo. A luz do poste escorre pela chuva dentro de mim junto com o chope. Quatro e setenta, o chope. Eu, que só tenho duas notas de dois para um possível assalto, fico devendo setenta ao garçom. O assaltante que me desculpe, pago fiado. Fica justo.
    Uma nuca atraente.
    Quem me expulsou de casa é a vontade de engolir o mundo. De ser engolida viva, digerida. Ou de causar indigestão.
    A mão inclina o copo que entorna na boca o chope gelado. Primeiro, espuma. Em seguida, o líquido dourado. Lábios, dentes, língua céu da boca. Vai amortecendo, acolchoando, preparando a cama, travesseiro, lençol, edredom. Escorre, depois, pela garganta e dá conta do resto do corpo. Pijama de moletom.
    Há quem prefira um leitinho quente.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012


Vende-se coração.

Descrição: péssimo estado de conservação. Partido recentemente por uma bela dama, estando, pois, bastante remendado e batendo com certo desprazer, além de apresentar histórico familiar de morte prematura por infarto, uma coleção de pontes de safena e outros tantos acidentes cardiovasculares.

Tamanho: aproximadamente 12 cm de comprimento por 9 cm de largura, oscilando no compasso sístole-diástole e comprimindo-se até o tamanho de um caroço de uva em situações de tensão ou sofrimento.

Ao comprador: se tratado com hábitos saudáveis, como uma alimentação balanceada e exercícios físicos regulares, evitando, assim, sobrecarregar o órgão em questão devido a entupimentos de veias, artérias ou quaisquer outros destes canais, e com uma pequena dose diária de carinho e respeito, estima-se que dure ainda mais algumas décadas. Embora, talvez, capengando um pouco.

Preço: uma pechincha.

Desej’ânsia.



Os dois corpos.
É só o que há.
Buscam-se,
perdem-se.

Nas curvas, nos impulsos,
mãos e bocas não se bastam.
Muito querer para pouco corpo,
ou muito corpo para, ainda muito, querer.

Cheiros e gostos.
Os olhos que chamam,
o toque que arrasta.
Ela me mostra, ela me cega.
Ela me exige,
em seu retrato mais meu.
(Tão) Bonita.

Os dois corpos
se acham,
se afinam
e se findam.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012


Meu mal é a falta de pressa.
Tudo o que sai de mim
é o que já estava pronto há muito tempo.
Não é questão de querência,
é só que eu não nasci pra ser grandes coisas.

domingo, 14 de agosto de 2011

    Acordara em um daqueles dias marcados para dar merda. O café-da-manhã estava uma delícia e fora tomado em companhia das mais belas e agradáveis, com direito a achocolatado e chocotone - talvez um prenúncio intestinal da tal merda supracitada. Engolida a refeição - e outras tantas coisas bem menos saborosas - a namorada foi embora para (des)cuidar de sua vida. Ficou, então, sozinha: louças e lágrimas. Para as louças, não deu atenção; as largou na pia e foi para a cama, onde não escapou às lágrimas. Se desentendera, não bem com a namorada, mas consigo mesma. Em verdade, não sabia do que se tratava, porém, fosse apenas aquela angústia matinal dos que só conhecem o mundo pós-meio-dia, fosse a despedida prematura dos beijos e carinhos, sabia que precisava sair de casa e inventar uma alegria qualquer.    
    Nesse ímpeto de (sobre)viver, tomou um banho e saiu rumo ao cinema. No caminho - um pequeno peido diante da cagada iminente - avistou uma parente daquelas mais sorridentemente chatas, e ainda com a filha a tiracolo. Tentou dar meia-volta, mas, estando no meio da travessia da rua, e com os carros se aproximando, não teve jeito, preferiu, ainda que com certa hesitação, a parente à morte. Entre um "como você está alta!" e um "aparece lá em casa!":
    - E sua avó, como está?!
    - Ela tá bem.
    - E seus pais? Seus irmãos?
    - Estão bem, tá todo mundo bem.
    - Ah, e você está ótima, né?! Dá pra ver na sua cara!
    Sem poder alegar falta de saco, contentou-se em alegar falta de tempo e se despediu, imaginando em que parte de sua cara estaria toda aquela otimidade, se nos olhos inchados ou no nariz vermelho e entupido. E então lhe veio um riso fácil, divertido. "Dá pra ver na sua cara!". Seguiu ao cinema e, rindo-se ainda da melhor do dia, comprou seu ingresso, uma caneta e sentou para escrever enquanto esperava a hora da sessão.
    Deu-se a cagada, que só respingou nela dias depois. Daí, jogada novamente em sua cama, os olhos já turvos de lágrimas e desânimo, sorriu para si, irônica e vaidosamente satisfeita: sua cara devia estar otima.

sábado, 13 de agosto de 2011