terça-feira, 2 de setembro de 2014

Eu não sou homossexual. Eu não sou bissexual. Eu não sou mulher. Eu não sou moradora da Zona Sul. Eu não sou carioca. Eu não sou brasileira. Eu não sou estudante de Letras. Eu não sou estudante da UFRJ. Eu não sou branca. Eu não sou sem-religião. Eu não sou ex-católica. Eu não sou ex-evangélica. Eu não sou ex-gorda. Eu não sou alta. Eu não sou cachaceira. Eu não sou neta de paraense. Eu não sou neta de capixaba. Eu não sou filha de mãe morta. Eu não sou a filha do meio.
Eu não sou nada disso. Eu sou tudo isso e mais inumeráveis coisas. E eu não vejo a hora da minha sexualidade virar apenas um detalhe.


quinta-feira, 26 de junho de 2014

Para não rimar céu com papel (poema resposta)

Pois, se for caso de comprar,
eu compro.
Pois, se entregarem antes das dez,
acordo.

Mas eu prefiro assim chegado
com lua na mesa e cerveja no céu.
Coração disfarçado de flores
de papel e de canudo.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


    Como um catador de lixo às avessas, vou buscando latas cheias de cerveja. “Hábito” quase tão lucrativo quanto o deles, dada a miséria paga. Menos saudável, entretanto. Bebo mais pra escrever melhor, ou pra não saber mais que estou escrevendo tão mal. E tocam (e tocam, e tocam, e tocam!) jazz. Não sei nem o que nem de quem, só sei que é jazz porque diz o cartaz: FESTIVAL DE JAZZ.

    (Porra! Me dou uma bronca pelo que ia escrever.)

    Essa cultura de “foi com quem?”. Parece que a gente tá sempre precisando de companhia, e, quando não precisamos, galera logo faz que sim: foi com quem? Fui comigo, porra.

    Tô é muito desconfiada desse jazz. Não entendo nada de jazz (de nada), mas isso não é jazz.

(...)

    Tem uma mãe me olhando e me olhando. Segunda mãe da vida me olhando e me olhando, e não to falando da minha, que só teve tempo de olhar rápido. Parou, foi embora.

(...)

segunda-feira, 26 de novembro de 2012



    Meio de novembro. Uma cobertura já enfeitada de natal pisca verde vermelho amarelo. A luz do poste escorre pela chuva dentro de mim junto com o chope. Quatro e setenta, o chope. Eu, que só tenho duas notas de dois para um possível assalto, fico devendo setenta ao garçom. O assaltante que me desculpe, pago fiado. Fica justo.
    Uma nuca atraente.
    Quem me expulsou de casa é a vontade de engolir o mundo. De ser engolida viva, digerida. Ou de causar indigestão.
    A mão inclina o copo que entorna na boca o chope gelado. Primeiro, espuma. Em seguida, o líquido dourado. Lábios, dentes, língua céu da boca. Vai amortecendo, acolchoando, preparando a cama, travesseiro, lençol, edredom. Escorre, depois, pela garganta e dá conta do resto do corpo. Pijama de moletom.
    Há quem prefira um leitinho quente.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012


Vende-se coração.

Descrição: péssimo estado de conservação. Partido recentemente por uma bela dama, estando, pois, bastante remendado e batendo com certo desprazer, além de apresentar histórico familiar de morte prematura por infarto, uma coleção de pontes de safena e outros tantos acidentes cardiovasculares.

Tamanho: aproximadamente 12 cm de comprimento por 9 cm de largura, oscilando no compasso sístole-diástole e comprimindo-se até o tamanho de um caroço de uva em situações de tensão ou sofrimento.

Ao comprador: se tratado com hábitos saudáveis, como uma alimentação balanceada e exercícios físicos regulares, evitando, assim, sobrecarregar o órgão em questão devido a entupimentos de veias, artérias ou quaisquer outros destes canais, e com uma pequena dose diária de carinho e respeito, estima-se que dure ainda mais algumas décadas. Embora, talvez, capengando um pouco.

Preço: uma pechincha.

Desej’ânsia.



Os dois corpos.
É só o que há.
Buscam-se,
perdem-se.

Nas curvas, nos impulsos,
mãos e bocas não se bastam.
Muito querer para pouco corpo,
ou muito corpo para, ainda muito, querer.

Cheiros e gostos.
Os olhos que chamam,
o toque que arrasta.
Ela me mostra, ela me cega.
Ela me exige,
em seu retrato mais meu.
(Tão) Bonita.

Os dois corpos
se acham,
se afinam
e se findam.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012


Meu mal é a falta de pressa.
Tudo o que sai de mim
é o que já estava pronto há muito tempo.
Não é questão de querência,
é só que eu não nasci pra ser grandes coisas.