quinta-feira, 26 de junho de 2014

Para não rimar céu com papel (poema resposta)

Pois, se for caso de comprar,
eu compro.
Pois, se entregarem antes das dez,
acordo.

Mas eu prefiro assim chegado
com lua na mesa e cerveja no céu.
Coração disfarçado de flores
de papel e de canudo.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


    Como um catador de lixo às avessas, vou buscando latas cheias de cerveja. “Hábito” quase tão lucrativo quanto o deles, dada a miséria paga. Menos saudável, entretanto. Bebo mais pra escrever melhor, ou pra não saber mais que estou escrevendo tão mal. E tocam (e tocam, e tocam, e tocam!) jazz. Não sei nem o que nem de quem, só sei que é jazz porque diz o cartaz: FESTIVAL DE JAZZ.

    (Porra! Me dou uma bronca pelo que ia escrever.)

    Essa cultura de “foi com quem?”. Parece que a gente tá sempre precisando de companhia, e, quando não precisamos, galera logo faz que sim: foi com quem? Fui comigo, porra.

    Tô é muito desconfiada desse jazz. Não entendo nada de jazz (de nada), mas isso não é jazz.

(...)

    Tem uma mãe me olhando e me olhando. Segunda mãe da vida me olhando e me olhando, e não to falando da minha, que só teve tempo de olhar rápido. Parou, foi embora.

(...)

segunda-feira, 26 de novembro de 2012



    Meio de novembro. Uma cobertura já enfeitada de natal pisca verde vermelho amarelo. A luz do poste escorre pela chuva dentro de mim junto com o chope. Quatro e setenta, o chope. Eu, que só tenho duas notas de dois para um possível assalto, fico devendo setenta ao garçom. O assaltante que me desculpe, pago fiado. Fica justo.
    Uma nuca atraente.
    Quem me expulsou de casa é a vontade de engolir o mundo. De ser engolida viva, digerida. Ou de causar indigestão.
    A mão inclina o copo que entorna na boca o chope gelado. Primeiro, espuma. Em seguida, o líquido dourado. Lábios, dentes, língua céu da boca. Vai amortecendo, acolchoando, preparando a cama, travesseiro, lençol, edredom. Escorre, depois, pela garganta e dá conta do resto do corpo. Pijama de moletom.
    Há quem prefira um leitinho quente.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012


Vende-se coração.

Descrição: péssimo estado de conservação. Partido recentemente por uma bela dama, estando, pois, bastante remendado e batendo com certo desprazer, além de apresentar histórico familiar de morte prematura por infarto, uma coleção de pontes de safena e outros tantos acidentes cardiovasculares.

Tamanho: aproximadamente 12 cm de comprimento por 9 cm de largura, oscilando no compasso sístole-diástole e comprimindo-se até o tamanho de um caroço de uva em situações de tensão ou sofrimento.

Ao comprador: se tratado com hábitos saudáveis, como uma alimentação balanceada e exercícios físicos regulares, evitando, assim, sobrecarregar o órgão em questão devido a entupimentos de veias, artérias ou quaisquer outros destes canais, e com uma pequena dose diária de carinho e respeito, estima-se que dure ainda mais algumas décadas. Embora, talvez, capengando um pouco.

Preço: uma pechincha.

Desej’ânsia.



Os dois corpos.
É só o que há.
Buscam-se,
perdem-se.

Nas curvas, nos impulsos,
mãos e bocas não se bastam.
Muito querer para pouco corpo,
ou muito corpo para, ainda muito, querer.

Cheiros e gostos.
Os olhos que chamam,
o toque que arrasta.
Ela me mostra, ela me cega.
Ela me exige,
em seu retrato mais meu.
(Tão) Bonita.

Os dois corpos
se acham,
se afinam
e se findam.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012


Meu mal é a falta de pressa.
Tudo o que sai de mim
é o que já estava pronto há muito tempo.
Não é questão de querência,
é só que eu não nasci pra ser grandes coisas.

domingo, 14 de agosto de 2011

    Acordara em um daqueles dias marcados para dar merda. O café-da-manhã estava uma delícia e fora tomado em companhia das mais belas e agradáveis, com direito a achocolatado e chocotone - talvez um prenúncio intestinal da tal merda supracitada. Engolida a refeição - e outras tantas coisas bem menos saborosas - a namorada foi embora para (des)cuidar de sua vida. Ficou, então, sozinha: louças e lágrimas. Para as louças, não deu atenção; as largou na pia e foi para a cama, onde não escapou às lágrimas. Se desentendera, não bem com a namorada, mas consigo mesma. Em verdade, não sabia do que se tratava, porém, fosse apenas aquela angústia matinal dos que só conhecem o mundo pós-meio-dia, fosse a despedida prematura dos beijos e carinhos, sabia que precisava sair de casa e inventar uma alegria qualquer.    
    Nesse ímpeto de (sobre)viver, tomou um banho e saiu rumo ao cinema. No caminho - um pequeno peido diante da cagada iminente - avistou uma parente daquelas mais sorridentemente chatas, e ainda com a filha a tiracolo. Tentou dar meia-volta, mas, estando no meio da travessia da rua, e com os carros se aproximando, não teve jeito, preferiu, ainda que com certa hesitação, a parente à morte. Entre um "como você está alta!" e um "aparece lá em casa!":
    - E sua avó, como está?!
    - Ela tá bem.
    - E seus pais? Seus irmãos?
    - Estão bem, tá todo mundo bem.
    - Ah, e você está ótima, né?! Dá pra ver na sua cara!
    Sem poder alegar falta de saco, contentou-se em alegar falta de tempo e se despediu, imaginando em que parte de sua cara estaria toda aquela otimidade, se nos olhos inchados ou no nariz vermelho e entupido. E então lhe veio um riso fácil, divertido. "Dá pra ver na sua cara!". Seguiu ao cinema e, rindo-se ainda da melhor do dia, comprou seu ingresso, uma caneta e sentou para escrever enquanto esperava a hora da sessão.
    Deu-se a cagada, que só respingou nela dias depois. Daí, jogada novamente em sua cama, os olhos já turvos de lágrimas e desânimo, sorriu para si, irônica e vaidosamente satisfeita: sua cara devia estar otima.